Blog: 1001 pessoas que conheci antes do fim do mundo


Hoje vim apresentá-los o blog cheio de histórias legais que eu amo e adoro da Aline Vieira. Aline tem 26 anos, é paulistana e sempre achou que uma fogueira, garrafas e mais garrafas de coca-cola e um surfista californiano seriam suficientes pra vida ser perfeita... Até perceber que a praia e o verão não são as únicas coisas que a deixam feliz. A autora - que não, não acreditava no fim do mundo em 2012! - gosta de ouvir, por mais bizarras que sejam, as histórias das pessoas que andam por aí. No bar, no mercado, no shopping, durante a baldeação do trem... tanto faz.


Minha pessoinha preferida é Kevin, o hippie:

"Atravessei a rua correndo, num drible ousado em faróis abertos, carros apressados e os gritos irritados de guardas de trânsito de plantão. Eu fugia de uma multidão que saía de um show num sábado à noite. Eram vinte e sete mil pessoas, sendo que metade dessas deveriam estar, no mínimo, felizes demais pra se importar com o engarrafamento que se formava na avenida principal.

Numa esquina, ele: sujo, de chinelo e com seus dreads levemente bagunçados (como se existissem dreads “penteados”). Assim que cruzamos olhares, prometi que não me renderia, mais uma vez, a conversas com estranhos. Eu não pararia ali, no meio daquela muvuca, por nada nesse mundo. Eu não seria protagonista de outra cena dessas. Eu não contaria no almoço no bandejão que, dessa vez, eu bati um papo com um hippie no meio da rua. Eu não teria essa história… E eu não consegui cumprir essa promessa, claro.

O nome verdadeiro dele era Rodrigo, mas o artístico era Kevin. Segundo ele, “qué vim, vem. não qué, vai”. Quando disse ao Kevin que estava atrasada, ele piscou devagar e falou que “andaria comigo”. E ele veio, deixando sua vitrininha de bugingangas para trás. “Só não vai muito longe porque senão roubam minhas coisas”, disse, bem tranquilo. E Kevin me comoveu ao ponto de me fazer parar de andar e ouvi-lo.

“Você gosta de estrelinha, de florzinha ou de coraçãozinho?”, me perguntou, sorrindo. Meu cérebro gritava um “amigo, eu realmente não gosto de nada disso”, mas quando abri a boca, a resposta veio diferente: “Gosto de florzinhas”, eu disse. Kevin então pediu 60 “segundinhos” e eu o dei esses 60 “segundinhos”. Enquanto analisava tudo – desde seu rosto até a cara de choque das pessoas ao nosso redor -, Kevin coordenava um alicate, alguns fios de arame de cobre e me fazia um anel.

De perto, a barba não feita dele pouco cobria suas expressões. Kevin tinha, no máximo, 26 anos e deixava claro ali todas as suas angústias. Os olhares atentos – e de dó – das outras pessoas me incomodavam. Pra elas, era como se eu estivesse pedindo para ser assaltada, como se fizesse algo muito errado. Essa condenação me deu pena… Não do Kevin, mas delas mesmo.

Voltei a me concentrar no hippie Kevin. Ele vestia uma blusa preta com algo como “New York to San Francisco” escrito em letras medianas. Mais uma vez, meu inconsciente cuspiu uma frase. “Gostei da tua blusa. San Francisco, né?”. O Kevin continuou fazendo o meu anel de florzinha de arame, mas levantou brevemente a cabeça e revelou: “Viajei esse Brasil inteiro, mas nada de San pra mim”.

Mas eu não estava contente: mais uma vez, soltei uma daquelas minhas perguntas curiosas. “Qual o melhor lugar que você já esteve?”, eu falei, baixinho. A resposta, apesar de simples, me surpreendeu: “Aqui. O melhor lugar do mundo é aqui e agora”. Ele sorriu grande e apertou o anel, já pronto, no meu dedo.

Meio abalada, por algum motivo que nem eu sabia naquela hora, resolvi terminar o papo com um “tenho que ir” e um “a gente se vê por aí”. Kevin apertou minha mão e disse: “A gente nunca mais vai se ver, mas foi um prazer te conhecer”."

Dei um tapinha nas costas dele, sorri e saí andando. Até nunca mais, Kevin.

Pra conferir essa e mais outras 77 histórias basta acessar o blog lindíssimo dela: clique aqui!
E aí, gostou do Kevin? A forma que ela escreve é sensacional e por ela viajar bastante traz uma diversidade de etnias que torna seu blog muito mais interessante. Dá gosto acompanhar seus relatos! Tenho certeza que Aline merece teu like no facebook, teu follow no twitter e outro no instagram. Não deixem de conhecê-la!