PEQME: A velha preconceituosa (ou arrogante?)

Devia ser meio dia ou mais. Erica, Maria, minha mãe e eu estávamos indo em direção à parada de ônibus. Programamos conhecer o shopping. Eu particularmente achava besteira porque pra mim shopping é shopping. Mas todas elas queriam. Então o que eu posso fazer? Não sabia voltar pro hotel sozinha, por isso tentei me contagiar com a animação delas e as segui. 
— O ônibus! – gritou Erica, nossa "guia turística".
Imaginem nós quatro correndo atrás do ônibus. Eu ri da situação, afinal não é todo dia que você viaja pro Rio de Janeiro em companhia de sua mãe e suas duas amigas loucas, certo? O motorista que já estava dando partida foi gentil e parou o ônibus pra nós. Sorrimos e agradecemos ao subir. Maria não precisava pagar passagem por causa da idade e por isso ficou na parte da frente do ônibus. Fomos para o fundo do ônibus que estava lotado. Ficamos em pé esperando chegar nossa parada. Parecia ser apenas mais um dia feliz cheio de aventuras no RJ. Eu, por ser desastrada, estava concentrada em tentar não me esbarrar nos outros passageiros e facilitar a passagem deles.
Me distrai com um moço lindo, lindo mesmo, do cabelo castanho claro, espetado e dos olhos castanhos de tom duvidoso. Ele estava sem camisa em pé do meu ladinho. Me derreti momentaneamente, mas um homem interrompeu meu transe pedindo licença para passar. Dei-lhe um espaço para passar, mas acabei encostando numa mulher velha que estava sentada na minha frente. Essa mulher tornou uma encostada num oceano de problemas. 
Ela reclamou, eu pedi desculpas envergonhada e, mesmo assim, ela continuou reclamando, xingando e me insultando com outra velha que estava do seu lado. Fiquei tão chocada que não tive reação. As lágrimas já ameaçavam cair, tentei me distanciar dela, mas o ônibus estava lotado. Virei de costas e, mesmo assim, ouvia os xingamentos das duas para mim. 
O moço sem camisa me defendeu falando alguma coisa, mas eu não pude agradecer, pois se eu falasse alguma coisa, eu sabia que iria cair em prantos. Minha mãe estava ocupada tagarelando com um nordestino de Fortaleza que nos reconheceu pelo nosso linguajar e não notou o que havia acontecido. 
Eu nunca me senti tão desnorteada em toda minha vida. Foi um dos momentos que eu mais fiquei sem chão, pensando em já querer voltar pra minha terra. Não sei se foi preconceito por causa do meu sotaque ou pura arrogância da velha (ou foram ambos), só sei que quando desci do ônibus eu chorei oceanos. 
Muito obrigada, moço lindo. Foi por tua causa que eu não me permiti chorar no ônibus na frente daquela velha mal amada. E pras pessoas que são assim: espero que seu coração seja preenchido com muito amor e alegria pra acabar com todo esse rancor.
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